Alok: do bar em Londres ao topo da música eletrônica

A mudança para Londres e os primeiros passos
O retorno de Alok a Londres em junho marcou um momento carregado de emoções para o DJ. Naquela cidade que o viu aos 18 anos com sonhos de glória, o artista agora retornava como estrela internacional para abrir sua nova turnê, Rave the World, no icônico O2 Academy em Brixton. Porém, as mesmas ruas por onde seus fãs agora faziam fila eram aquelas onde Alok, no ano de 2010, recolhia bitucas de cigarro e sonhava em silêncio.
Alok e seu irmão Bhaskar haviam começado a produzir música juntos ainda no Brasil, alcançando certo reconhecimento em plataformas de streaming dedicadas à música eletrônica. O sucesso inicial os motivou a tomar uma decisão ousada: emigrar para Londres, um centro reconhecido mundialmente pela cena de música eletrônica. Contudo, a realidade se mostrou muito diferente das expectativas.
Para sobreviver na capital britânica, Alok trabalhou como barback, uma função de assistente de barman que o obrigava a realizar tarefas as mais variadas durante os turnos noturnos. Era justamente esse o contexto que o DJ rememorou com uma mistura de alívio e nostalgia ao conversar com a BBC News Brasil antes de subir ao palco daquele mesmo lugar onde anos antes limpava pisos enquanto observava DJs se apresentarem.
Heranças familiares e a influência dos pais
A trajetória desafiadora de Alok não era uma novidade completa em sua família. Seus pais, Ekanta e Swarup, haviam trilhado um caminho igualmente exigente décadas antes. Ambos se tornariam posteriormente nomes de destaque na cena do psytrance brasileiro, um subgênero psicodélico e hipnotizante da música eletrônica caracterizado por batidas rápidas e intensas.
A mãe de Alok se mudou para Orlando, na Flórida, carregando os filhos consigo para trabalhar como faxineira em uma boate. Naquele ambiente, descobriu o psytrance e se apaixonou pelo gênero, decidindo aprender a produzir. O pai, visitando a família posteriormente, também sucumbiu aos encantos sonoros da música eletrônica. Assim começou a coletar discos de vinil e equipamento, iniciando apresentações para pequenos grupos de trinta pessoas, quase como um movimento contracultural.
Para Alok, observar seus pais trilharem esse caminho tornou natural seguir os próprios passos na música. Afinal, conforme ele mesmo relata, a música eletrônica não possui matriz profunda na cultura brasileira, diferentemente do samba, pagode ou sertanejo.
Uma infância nômade entre continentes
Nascido em Goiânia, Alok viveu uma infância pouco convencional que moldaria sua visão de mundo. Até aproximadamente os treze anos, ele e sua família eram essencialmente nômades. Além de Orlando, o DJ guarda memórias vívidas de Amsterdã, onde a família residia em um edifício histórico abandonado que fora um hospital, situado em uma comunidade de orientação hippie.
Posteriormente, a família se mudaria para Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros em Goiás, distanciando-se ainda mais da sociedade convencional. Ao ser reintegrado ao sistema educacional formal em Brasília, Alok experimentou um choque de realidade. Viu-se confrontado com valores e estruturas que pareciam radicalmente distintos daquilo que havia vivenciado, levando-o a questionar profundamente suas próprias convicções.
O retorno ao Brasil e a decisão definitiva
Decorridos quase dois anos desde sua chegada em Londres, repletos de tentativas frustradas de consolidar uma carreira como DJ, Alok tomou a difícil decisão de voltar ao Brasil. Considerou brevemente retomar seus estudos em Relações Internacionais, uma escolha que parecia segura diante das dificuldades que enfrentava.
Foi então que seus pais intervieram de maneira inesperada. Seu pai lhe disse claramente para abandonar completamente a ideia da faculdade e não desistir de sua paixão pela música. Para Alok, essa sugestão soava contraditória e aterradora. Ele havia visto seus pais enfrentarem dificuldades financeiras consideráveis ao tentar viver de arte, e não desejava repetir aquele sacrifício.
Apesar das apreensões, decidiu dar uma última chance à música. E foi nesse momento que fez uma escolha crucial: abandonar o psytrance de seus pais e mergulhar na house music, um subgênero da música eletrônica consideravelmente mais melódico, dançante e acessível, frequentemente acompanhado de vocais. Essa mudança se mostraria ser exatamente a decisão necessária.
O lançamento que transformou tudo
Com obras ainda underground, Alok produzia remixes e originais que variavam de artistas como Snoop Dogg até nomes da música brasileira como Barão Vermelho. Seu alcance crescia consistentemente, chegando a milhões de ouvintes através de plataformas de streaming. Porém, o verdadeiro catalisador de sua carreira global chegou em 2016.
Naquele ano, Alok lançou "Hear Me Now", uma colaboração com o cantor Zeeba nos vocais e o DJ Bruno Martini na produção. A faixa atingiu proporções épicas, acumulando quase um bilhão de reproduções somente no Spotify. Dez anos após seu lançamento, continua sendo a música brasileira mais tocada na plataforma de streaming musical mais popular do mundo, um feito extraordinário que consolida seu impacto duradouro na indústria.
A depressão, a cura indígena e um novo propósito
O êxito comercial de "Hear Me Now" não foi suficiente para garantir paz emocional. Apesar de ocupar posições altas nas paradas mundiais, Alok enfrentava uma depressão silenciosa e profunda. O ponto de virada ocorreu quando assistiu a um vídeo de povos indígenas cantando suas tradições. Aquela imagem tocou algo profundo em seu ser.
Movido por aquela conexão inesperada, Alok organizou uma expedição até a aldeia dos Yawanawá, localizada no Acre, a mais de dois mil quilômetros de São Paulo. O trajeto exigiu viajar de avião, carro e barco através da floresta amazônica. Ao chegar, recebeu a bênção de um pajé e foi presenteado com um cocar, que guarda respeitosamente em sua casa como símbolo daquele encontro transformador.
Esse contato genuíno com a cosmologia indígena revolucionou sua perspectiva. Alok percebeu que enquanto produzia música profissional para ocupar rankings, os indígenas criavam música para curar. Compreendeu que a dicotomia entre culturas desenvolvidas e menos desenvolvidas era falsa; existiam, na verdade, valores e objetivos fundamentalmente diferentes.
O projeto "O Futuro É Ancestral" e a preservação cultural
O impacto daquele encontro transcendental resultou no projeto ambicioso intitulado "O Futuro É Ancestral", que compreende um disco gravado em colaboração com diversas etnias indígenas e uma turnê dedicada. Além disso, nasceu uma iniciativa de preservação cultural sem precedentes: uma biblioteca composta por centenas de músicas indígenas registradas e catalogadas.
Os próprios líderes indígenas solicitaram a Alok que documentasse essas tradições musicais, pois muitos conhecimentos são transmitidos oralmente através de cantos e nunca foram registrados formalmente. O DJ relatou que ao mostrar uma gravação para um pajé, o ancião chorou, confessando que cantava aquela mesma música todas as noites à beira do rio para não esquecê-la. Essa anedota revela o quanto o trabalho de Alok importa para a sobrevivência cultural de povos ancestrais.
Ativismo político e conscientização ambiental
Essa conexão profunda com as comunidades indígenas levou Alok a tomar posições políticas públicas. O artista, já onipresente nas rádios e televisão brasileira, viajou a Brasília e subiu ao palanque contra a tese do marco temporal, que restringe a demarcação de terras indígenas apenas aos territórios habitados por indígenas quando a Constituição de 1988 foi promulgada.
Os próprios indígenas o fizeram compreender que de nada adiantava salvar sua música e cultura se não salvasse aqueles que as cantam. Assim, Alok passou a colaborar com organizações das Nações Unidas em iniciativas ambientais e de direitos indígenas. Ele enfatiza que a pauta ambiental não pertence exclusivamente a um lado do espectro político e que é fundamental amplificar vozes historicamente silenciadas.
Para reduzir seu próprio impacto ambiental, Alok desistiu de manter um jato particular e contrata empresas que compensam sua pegada de carbono. Reconhece que ter consciência sobre os danos ambientais transforma decisões erradas em escolhas deliberadas, e é sobre essa transformação de consciência que trabalha constantemente.
A nova turnê e reflexões sobre tecnologia
Sua atual turnê, "Rave the World", reflete essas preocupações contemporâneas. O show acontece dentro de um contêiner de LED equipado com projeções de frases inspiracionais e coreografias de dançarinos, buscando explorar reflexões sobre o futuro das novas gerações. Nesse novo set, Alok resgata sonoridades de diferentes períodos de sua carreira, inclusive elementos do psytrance que seus pais o ensinaram.
Como artista conhecido por aparatos tecnológicos impressionantes, incluindo canhões de laser utilizados em apresentações ao ar livre como aquela memorável na praia de Copacabana, Alok reflete constantemente sobre o uso e os limites da tecnologia. Usa inteligência artificial para testar vocais em suas produções, pedindo a programas que gerem vozes inspiradas em cantores específicos antes de convidar artistas reais para gravações.
Contudo, Alok é enfático ao afirmar que a inteligência artificial deve ser uma ferramenta, nunca uma substituição. A arte, em sua essência, não existe apenas para confortar, mas também para confrontar, desafiar e fazer refletir. O desafio contemporâneo reside em manter a humanidade no centro da equação criativa enquanto se aproveitam os benefícios tecnológicos disponíveis.
