ANPD abre fiscalização contra Discord por morte de adolescente

ANPD inicia processo contra Discord
A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu um processo de fiscalização contra a plataforma Discord para investigar possíveis falhas na proteção de crianças e adolescentes. A iniciativa da ANPD Discord ocorreu em resposta à morte de uma jovem de 13 anos em Naviraí, Mato Grosso do Sul, no dia 22 de julho, vítima de coação durante uma transmissão ao vivo no aplicativo.
O procedimento administrativo busca apurar se a empresa de comunicação cumpre as obrigações estabelecidas no Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, regulamentação que entrou em vigor em março de 2026. A ANPD investigará especificamente violações relacionadas à segurança dos usuários menores de idade.
Pontos principais da investigação
A fiscalização da ANPD Discord concentra-se em diversos aspectos críticos da operação da plataforma. Primeiro, os investigadores analisarão falhas na implementação de medidas preventivas contra a exposição de menores a conteúdos que estimulem automutilação e suicídio.
A agência também verificará a eficácia dos mecanismos de verificação de idade utilizados pelo Discord. Muitos usuários menores conseguem criar perfis fornecendo informações falsas, o que compromete significativamente a proteção oferecida pela plataforma.
Além disso, a ANPD analisará o desempenho do Discord na remoção célere de conteúdos que violem normas de proteção infantil e sua comunicação com autoridades competentes quando casos graves são identificados.
Cronograma de cumprimento
O Discord dispõe de cinco dias úteis para apresentar à ANPD informações detalhadas sobre os mecanismos existentes para prevenir violações graves contra menores. Essa documentação será fundamental para que a agência determine o cumprimento ou não das obrigações legais.
Caso que motivou a investigação
A morte da adolescente em Mato Grosso do Sul resultou de coação exercida por integrantes de um grupo que utilizava o Discord para recrutar e radicalizar jovens. A transmissão ao vivo durou aproximadamente 45 minutos, durante os quais a vítima foi induzida a tirar sua própria vida.
Investigações posteriores revelaram que os suspeitos mantinham materiais relacionados ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil. O grupo utilizava Discord e Telegram para disseminar discursos de ódio, estimular comportamentos violentos e atrair vítimas, predominantemente meninas.
Operação policial coordenada
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, em coordenação com o Ciberlab da Secretaria Nacional de Segurança Pública, implementou operação direcionada a seis integrantes do grupo em diferentes estados. O Ciberlab, laboratório especializado em investigação de crimes cibernéticos, continua apurando todos os aspectos do caso.
Além da ANPD Discord, outros órgãos públicos atuam de forma complementar para garantir a responsabilização e implementação de medidas preventivas futuras.
Possíveis penalidades
Caso a ANPD identifique irregularidades no funcionamento do Discord, a agência poderá determinar alterações nas práticas operacionais da empresa. As sanções previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente Digital incluem multas de até R$ 50 milhões por infração constatada.
Essa estrutura punitiva busca incentivar plataformas digitais a implementarem medidas robustas de proteção desde o design de seus serviços.
Compromissos do Discord com a AGU
Além da investigação da ANPD, o Discord reuniu-se com a Advocacia-Geral da União (AGU) para discutir conformidade com normas brasileiras. A empresa se comprometeu a apresentar, até segunda-feira (10), um plano de ampliação das proteções oferecidas na plataforma.
Os representantes do Discord assumiram obrigações relacionadas ao dever de cuidado, princípio que exige das plataformas digitais a adoção de medidas concretas para reduzir riscos aos usuários. O documento deverá detalhar especificamente como a empresa protegerá mulheres, crianças, adolescentes e animais contra violações.
Contexto regulatório
A atuação da ANPD Discord insere-se em um movimento mais amplo de regulação das redes sociais no Brasil. A implementação do ECA Digital representou marco importante na proteção de menores em ambientes digitais, estabelecendo responsabilidades claras para plataformas.
Conforme avaliações de integrantes da AGU, a reunião desta sexta-feira foi considerada produtiva, sinalizando possibilidade de colaboração entre setor privado e órgãos governamentais para melhorar a segurança online.
