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Biscoitos mudaram de verdade? Descubra as razões reais

Biscoitos mudaram de verdade? Descubra as razões reais
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Os biscoitos realmente passaram por transformações

A percepção de que os biscoitos mudaram está longe de ser apenas uma impressão nostálgica. Consumidores em todo o Brasil relatam alterações significativas em produtos que fazem parte de suas memórias de infância, e pesquisadores confirmam que, de fato, os biscoitos mudaram ao longo das décadas. No entanto, a questão sobre se biscoitos mudaram para melhor ou pior envolve múltiplos fatores que vão além de simples mudanças de receita.

Henrique Lira, personal trainer e professor de educação física com 44 anos, exemplifica essa experiência comum. Ao revisitar biscoitos que consumia nos anos 1990, percebeu diferenças notáveis em textura, quantidade e intensidade de sabor. "Muitos produtos perderam peso, alguns pacotes ficaram com quatro ou cinco unidades a menos, e a composição mudou bastante", relata. Essas observações não são isoladas; elas refletem uma transformação estrutural que ocorreu na indústria de biscoitos brasileira.

Dentro da fábrica: mudanças nas receitas e processos

Para compreender por que um biscoito parece diferente mesmo mantendo a mesma marca, é essencial entender as transformações que ocorrem nos processos de fabricação. Cristiane Ruffi, pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), explica que alterações em ingredientes, fornecedores, embalagens e técnicas de produção modificam diretamente características como sabor, aroma, textura e crocância.

Nos últimos anos, a indústria de alimentos passou por uma revolução. Fabricantes reformularam produtos para reduzir açúcar, sódio e gordura saturada, atendendo às novas exigências regulatórias, principalmente a rotulagem nutricional frontal. Esses ingredientes, quando reduzidos ou substituídos por alternativas mais saudáveis, inevitavelmente alteram a experiência sensorial do consumidor.

Fernanda Vanin, professora da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, destaca que a evolução trouxe avanços importantes em segurança alimentar. Os produtos atuais passam por controles microbiológicos e químicos muito mais rigorosos do que décadas atrás. Um exemplo significativo é o monitoramento de acrilamida, uma substância que se forma naturalmente quando alimentos ricos em carboidratos são aquecidos em temperaturas elevadas.

Segurança versus sabor: o dilema da indústria

O desafio central que a indústria enfrenta é equilibrar dois objetivos aparentemente conflitantes: criar produtos nutricionalmente mais adequados sem sacrificar as características que os consumidores valorizam. Cristiane Ruffi sintetiza esse dilema: "O grande desafio da indústria de alimentos é introduzir ingredientes cada vez mais saudáveis sem que o consumidor precise abrir mão do prazer em comer".

Essa transformação ocorreu em resposta às demandas de consumidores cada vez mais conscientes sobre saúde, além de atender novos segmentos de mercado. Pessoas que utilizam medicamentos da classe GLP-1, conhecidos como "canetas emagrecedoras", aquelas que passaram por cirurgia bariátrica e quem busca maior consumo de proteínas agora representam parcelas importantes do mercado consumidor.

Fatores econômicos: inflação invisível e reduflação

Além das mudanças deliberadas nas receitas, pressões econômicas transformaram significativamente a indústria. Matérias-primas essenciais como trigo, açúcar, óleo vegetal e cacau passaram por períodos de alta nos últimos anos, impactando diretamente os custos de produção.

Segundo o economista Valter Palmieri Jr., especialista em inflação de alimentos, um conceito crucial explica essa dinâmica: a "inflação invisível". Nesse cenário, o consumidor não percebe apenas um aumento direto no preço, mas também alterações na quantidade, composição ou qualidade percebida do produto.

Um fenômeno específico ganhou atenção dos órgãos de defesa do consumidor: a shrinkflation, conhecida no Brasil como "reduflação". Essa prática mantém a receita praticamente igual, mas reduz a quantidade do produto. Um pacote que antes continha 200 gramas passa a ter 180 gramas, enquanto o preço permanece semelhante. Em 2021, o Ministério da Justiça e Segurança Pública estabeleceu regulamentações exigindo que fabricantes informem claramente essas alterações quantitativas na embalagem.

Fenômenos relacionados incluem a "skimpflation", quando empresas substituem ingredientes mais caros por alternativas de menor custo, e a "cheapflation", caracterizada pelo crescimento de produtos mais simples e baratos para o consumo cotidiano, enquanto versões premium concentram ingredientes de maior valor agregado.

A memória afetiva: como o passado transforma a percepção

Além das mudanças reais nas receitas, especialistas apontam um fator psicológico importante: a memória afetiva. Aline Garcia, pesquisadora do Ital, explica que consumidores frequentemente comparam o produto atual não com a fórmula original, mas com uma lembrança construída ao longo dos anos.

Esse fenômeno relaciona-se ao chamado efeito "Ratatouille", em referência ao filme da Pixar em que um sabor desperta uma memória marcante da infância. "Existe uma mudança real somada a uma idealização emocional na mente do consumidor", afirma Aline. Essa combinação de transformações objetivas e reinterpretação subjetiva explica por que tantos consumidores sentem que os biscoitos antigos eram superiores.

Reformulações acompanharam novas exigências

A Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi) confirma que alterações nas receitas ocorreram principalmente para atender exigências regulatórias e acompanhar mudanças comportamentais dos consumidores. Fabricantes reduziram níveis de açúcar e sódio, substituíram aditivos e ampliaram portfólios com produtos enriquecidos em fibras e proteínas, além de versões para pessoas com restrições alimentares.

Apesar dessas transformações, biscoitos continuam sendo alimentos presentes em 99% dos lares brasileiros. O avanço das embalagens menores acompanha mudanças no perfil das famílias e hábitos de compra, com pacotes de até 150 gramas representando cerca de 42% do mercado. Simultaneamente, cresce o comportamento chamado "efeito ampulheta": consumidores economizam em produtos básicos, mas continuam dispostos a pagar mais por itens considerados especiais em momentos de indulgência.

Conclusão: mudança real e percepção complexa

Os biscoitos realmente mudaram, mas não de forma simples ou unidirecional. As transformações envolvem uma combinação de avanços tecnológicos, exigências regulatórias, pressões econômicas e mudanças comportamentais. Embora os produtos atuais sejam submetidos a controles de segurança muito mais rigorosos, mudanças nas receitas inevitavelmente alteraram características sensoriais que consumidores valorizam. A sensação de que biscoitos antigos eram melhores resulta dessa complexa interação entre transformações reais e reinterpretações emocionais da memória.

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