Haddad condena críticas de Tarcísio a Marina e Tebet

Haddad classifica críticas de Tarcísio como agressão injustificada
O pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, classificou como uma "agressão gratuita a duas mulheres" as críticas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) direcionadas às pré-candidatas ao Senado Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB). A declaração foi proferida a jornalistas na capital paulista durante a sexta-feira (10), momentos antes da participação de Haddad no podcast "Derrubando Muros".
O petista expressou perplexidade com a abordagem do adversário político, sustentando que as divergências devem ser discutidas exclusivamente no plano das ideias. Segundo Haddad, é possível discordar das agendas prioritárias de Marina e Tebet sem recorrer a ataques pessoais.
A posição de Haddad sobre o debate político
"Acho que todo mundo que ouviu [as críticas] ficou um pouco perplexo com uma agressão gratuita a duas mulheres, ex-senadoras, que têm serviços prestados. Não precisa concordar com pauta ambiental, da educação, as duas grandes bandeiras da Marina e da Simone, mas tem que respeitar e fazer o debate de ideias. Então [avaliei] com perplexidade", declarou Haddad aos repórteres.
O comentário do pré-candidato petista ocorreu dois dias após Tarcísio afirmar que Marina Silva e Simone Tebet "não começaram a fazer política em São Paulo" e que as duas "levaram cartão vermelho" nos estados onde construíram suas trajetórias políticas. Essas declarações foram feitas durante um evento com o deputado federal Guilherme Derrite (PP), também concorrente ao Senado.
As respostas de Marina e Tebet
Após os comentários do governador, as duas pré-candidatas reagiram publicamente. Marina Silva enfatizou que São Paulo "acolhe pessoas de todo o Brasil e do mundo", relembrando que foi atendida no Hospital das Clínicas quando enfrentou problemas de saúde em sua juventude.
Simone Tebet, por sua vez, destacou que contribui financeiramente para o estado há uma década. "Pago impostos em SP há dez anos", afirmou, completando com uma crítica ao governador: "sou cortiniana, não flamenguista", em referência à torcida de Tarcísio pelo Flamengo.
O contexto político das pesquisas
As duas candidatas aparecem à frente dos apoiadores de Tarcísio nas pesquisas de intenção de voto para o Senado federal. Marina nasceu no Acre e atua como deputada federal por São Paulo desde 2022, enquanto Tebet nasceu em Mato Grosso do Sul e disputa pela primeira vez um cargo eletivo no estado paulista.
O paradoxo de Tarcísio e a legislação eleitoral
Carioca e torcedor do Flamengo, o próprio Tarcísio não possuía vínculos com a política paulista antes de ser indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para concorrer ao governo estadual em 2022. Essa contradição realça a inconsistência das críticas de Tarcísio direcionadas às pré-candidatas.
A legislação eleitoral brasileira não estabelece como requisito obrigatório que um candidato tenha construído sua carreira política no estado onde pretende concorrer. Para disputar um cargo eletivo, a Constituição Federal e a Lei Eleitoral determinam que o político cumpra condições específicas de elegibilidade, entre elas o domicílio eleitoral na circunscrição onde pretende concorrer pelo menos seis meses antes do pleito.
Requisitos legais para candidatos
As condições de elegibilidade estabelecidas pela legislação brasileira incluem: nacionalidade brasileira; pleno exercício dos direitos políticos; alistamento eleitoral; domicílio eleitoral na circunscrição onde pretende disputar a eleição, pelo prazo exigido em lei (seis meses antes da eleição); filiação partidária no prazo legal; e idade mínima para o cargo.
No caso de eleições estaduais, como a de governador, o candidato precisa ter domicílio eleitoral no estado onde pretende concorrer, mas não é necessário ter nascido nesse estado. Dessa forma, é juridicamente viável que uma pessoa nascida em outro estado dispute o governo de São Paulo, o Senado ou qualquer outro cargo.
Precedentes políticos em São Paulo
Tarcísio de Freitas exemplifica essa possibilidade legal. Nascido no Rio de Janeiro e residente em Brasília desde a adolescência, o governador mudou seu domicílio eleitoral para a cidade de São José dos Campos em 2022, possibilitando sua candidatura e eleição para o Palácio dos Bandeirantes.
Em São Paulo, existem diversos casos semelhantes, inclusive entre aliados de Tarcísio. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) foi o parlamentar mais votado no estado em 2018 e figurou entre os três mais votados em 2022, apesar de sua família ter construído sua carreira política principalmente no Rio de Janeiro.
Carlos Bolsonaro (PL), irmão de Eduardo, foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro em 2024. Em dezembro do ano passado, Carlos renunciou à Câmara Municipal carioca para se mudar para Santa Catarina e disputar uma vaga ao Senado neste ano.
Outros exemplos históricos
A deputada federal Rosângela Wolff Moro, natural de Curitiba, mudou seu domicílio eleitoral para São Paulo com intenção de se candidatar em 2022 e foi eleita. A esposa do ex-juiz Sérgio Moro enfrentou um processo movido pelo PT relacionado à transferência de domicílio, mas a ação foi arquivada no TRE-SP.
Na história política da capital paulista, diversos prefeitos não nasceram na cidade. Luiza Erundina, atualmente no PSOL, nasceu na Paraíba mas construiu carreira como assistente social em São Paulo, sendo eleita prefeita em 1989 pelo PT. Desde então, é reeleita sucessivamente como deputada federal pelo estado.
Celso Pitta, outro ex-prefeito de São Paulo, mudou-se para a capital em março de 1987, vindo do Rio de Janeiro. O engenheiro foi convidado para assumir a direção financeira da Eucatex, empresa ligada ao ex-prefeito Paulo Maluf. Pitta foi escolhido sucessor de Maluf na eleição de 1996 e se tornou prefeito sem experiência política anterior.
Jânio Quadros, também ex-prefeito da capital, nasceu em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e mudou-se para São Paulo para estudar Direito na Faculdade do Largo São Francisco. Posteriormente, foi governador do estado e deputado federal pelo Paraná, além de presidente da República.
O caso de Fernando Henrique Cardoso
Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ex-presidente da República, nasceu no Rio de Janeiro e se mudou para São Paulo aos 8 anos. Na capital, estudou sociologia e economia na Universidade de São Paulo (USP), foi professor universitário e iniciou sua carreira política.
Em 1985, FHC foi candidato a prefeito de São Paulo pelo antigo PMDB, mas foi derrotado por Jânio Quadros (PTB) em uma eleição acirrada, com margem inferior a 1% dos votos. Posteriormente, concorreu e foi eleito senador constituinte entre 1987 e 1988, participando da confecção da Constituição Federal.
A campanha ao Senado de FHC contou com apoio de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), gerando imagens históricas dos dois realizando panfletagem conjunta no ABC paulista. Ambos se tornaram adversários políticos e presidentes da República nas décadas subsequentes.
