K-pop infiltra ditadura norte-coreana apesar repressão

A infiltração silenciosa do K-pop em um regime isolado
Enquanto Kim Jong-un busca manter a população norte-coreana completamente isolada, o K-pop encontrou brechas em uma das ditaduras mais fechadas do mundo. Apesar das leis rigorosas que transformam o consumo de música sul-coreana em crime, artistas como BTS, Blackpink e Girls' Generation conquistaram seguidores clandestinos na Coreia do Norte, representando um símbolo de liberdade em um regime baseado na vigilância extrema.
O fenômeno do K-pop na Coreia do Norte exemplifica como a cultura popular transcende fronteiras políticas e militares. Desertores norte-coreanos relatam que conseguiam acessar músicas sul-coreanas através de aparelhos de MP3 e cartões SD contrabandeados, muitas vezes sem conhecer os nomes dos artistas ou títulos das canções. Essas melodias representavam mais que entretenimento: eram janelas para um mundo exterior que o regime tentava desesperadamente manter fechado.
O sistema de controle total enfrentado pela população
Na Coreia do Norte, o K-pop enfrentava obstáculos monumentais. O regime concebeu um sistema onde só poderia existir um ídolo: Kim Jong-un. Qualquer forma de admiração por celebridades estrangeiras era considerada traição ao Estado. Lee Yeon-su, que nasceu no país e trabalhou em uma família militar, relembra que frequentar eventos de entretenimento era um privilégio reservado aos escolhidos. "Você precisava ser selecionada para participar dos eventos e, se não fosse, tinha que ficar em casa com as cortinas fechadas", afirma.
O regime utilizava mecanismos de terror para desencorajar o consumo de cultura sul-coreana. Hannah Oh, desertora de 25 anos que escapou em 2019, descreve as "sessões públicas de crítica" realizadas nas escolas. Quando alguém era descoberto consumindo conteúdo do sul, as autoridades divulgavam publicamente quais vídeos haviam sido assistidos e anunciavam prisão em centros de detenção para menores. Essa estratégia de humilhação pública visava intimidar toda a população.
Como o K-pop conseguiu chegar à população
Apesar da repressão, o K-pop infiltrou-se na Coreia do Norte através de múltiplas rotas. Kang Gyu-ri, que fugiu em 2023, conta que sua família, morando em Kyongsong, um condado costeiro, conseguia captar sinais de televisão sul-coreana com antenas caseiras. Os programas de fim de semana exibiam apresentações de ídolos K-pop com coreografias impecáveis e cabelos coloridos, tudo completamente diferente do que era permitido no norte.
A música se espalhava ainda mais por cartões SD que circulavam clandestinamente. O problema era que os nomes dos arquivos estavam frequentemente corrompidos, impossibilitando que os ouvintes soubessem o título ou o artista. Hannah Oh diz que anotava as letras em coreano para memorizá-las. Anos depois, descobriu que uma música que obsessivamente escrevia era "It's Not Too Late", do Green Zone, uma dupla dos anos 1990.
BTS: o nome que se tornou linguagem cotidiana
Entre todos os grupos K-pop que conseguiram penetrar a Coreia do Norte, o BTS ocupou um lugar especial. O nome coreano do grupo, Bangtan Sonyeondan, se tornou tão conhecido que integrou a linguagem codificada do dia a dia. Desertores relatam que as pessoas faziam referências ao grupo em conversas normais. "As pessoas dizem coisas como: 'Você experimentou um colete Bangtan?' ou 'Você colocou uma mochila Bangtan?'", exemplifica um desertor.
A música "Dynamite", lançado em 2020, foi particularmente impactante. Apesar de ser inteiramente em inglês, a melodia conquistou norte-coreanos que não compreendiam a letra. Gyu-ri relembra: "Eu não entendia a letra, mas a melodia era tão boa que fazia você se emocionar. Todo mundo acompanhava". Adolescentes começaram a imitar as coreografias características do grupo, criando uma moda underground que se espalhava de forma viral em um país sem acesso livre à internet.
O preço do consumo clandestino de K-pop
Consumir K-pop na Coreia do Norte sempre foi arriscado. Hannah Oh, como adolescente, carregava dois cartões SD: um com música sul-coreana e outro vazio que poderia entregar se fosse descoberta. Gyu-ri descreve a escalada de repressão: primeiro, histórias sobre pessoas sendo presas por assistir dramas do sul; depois, notícias de execuções públicas como advertência.
Em 2022, três adolescentes foram supostamente executados em público por distribuir conteúdos sul-coreanos. Yeon-su, que fugiu na década de 2000, foi capturada quando tentou atravessar a fronteira para a China e foi devolvida à força. Na prisão, uma música sul-coreana a mantinha viva emocionalmente: "Levante-se. Não deixe que o derrubem", cantava repetidamente em voz baixa. Ela pensava constantemente: "Preciso sobreviver. Preciso chegar à Coreia do Sul".
O K-pop como ferramenta de transformação pessoal
Para os desertores que conseguiram escapar, o K-pop adquiriu um significado profundo. Yeon-su descobriu o BTS após chegar à Coreia do Sul, inicialmente enfrentando discriminação em entrevistas de emprego. Quando conheceu a comunidade ARMY, a fanbase do grupo, pela primeira vez em sua vida sentiu-se completamente aceita. "Quando contei aos meus amigos mais próximos da ARMY que eu era da Coreia do Norte, ninguém me tratou de forma diferente. Assim como havia fãs do Brasil ou do Japão, eu era da Coreia do Norte."
A trilogia "Love Yourself" do BTS, centrada em aceitação e cura, tocou profundamente Yeon-su. A música "Answer: Love Myself", interpretada por Jimin, com a letra "Por que você continua tentando se esconder atrás da sua máscara? Até as cicatrizes deixadas pelos erros fazem parte da minha constelação", representou um momento transformador. "Encontrei a coragem para parar de fugir e enfrentar essa parte de mim mesma", reflexiona.
Uma janela para a liberdade de expressão
O impacto do K-pop vai além do entretenimento. Hana Kang, que chegou à Coreia do Sul há 20 anos, tornou-se fã do BTS porque o grupo representava algo que nunca experimentou no norte: a liberdade de expressar sentimentos. "Spring Day", lançada em 2017, uma canção melancólica sobre separação e saudade, a conectava com sua cidade natal e com a família deixada para trás.
Uma pesquisa de 2023 revelou que 98% dos desertores afirmaram ter assistido a dramas ou filmes sul-coreanos quando viviam na Coreia do Norte. Aproximadamente 80% disseram que isso despertou curiosidade pelo sul e influenciou hábitos como forma de falar e vestir. Hannah Oh acredita que é exatamente isso que o regime teme: quando as pessoas começam a se expressar, afeta um sistema onde todos deveriam pensar e agir identicamente.
O fenômeno continua apesar da repressão
Apesar das punições severas, as pessoas continuam consumindo K-pop na Coreia do Norte. Gyu-ri explica: "Era o nosso balão de oxigênio, a nossa janela para o mundo exterior. As pessoas arriscam a vida por isso porque isso lhes dá a esperança necessária para aguentar mais um dia". O K-pop representa não apenas entretenimento, mas resistência silenciosa contra um regime totalitário.
Os desertores mais recentes chegam em um contexto diferente: a música coreana é agora uma potência mundial e o BTS é seu maior símbolo global. Hannah Oh, que escapou em 2019, imaginava que passaria tempo recuperando músicas que antes consumia em segredo. Em vez disso, encontrou algo novo e talvez ainda mais libertador: a possibilidade de escolher. "De certa forma, agora vivo no tipo de mundo que antes só via nos dramas", conclui, refletindo sobre como o K-pop abriu, literalmente, as portas para uma vida de liberdade que antes parecia impossível.
