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Moacir Santos faria 100 anos: maestro que revolucionou a música brasileira

Moacir Santos faria 100 anos: maestro que revolucionou a música brasileira
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/07/26/moacir-santos-maestro-que-faria-100-anos-regeu-a-musica-do-brasil-com-o-ouro-negro-extraido-a-partir-do-sertao.ghtml

Um século da história musical brasileira

Neste domingo, 26 de julho, Moacir Santos estaria completando 100 anos de vida. O maestro nascido em 1926 em Flores, Pernambuco, consolidou-se como uma figura fundamental na transformação da música brasileira, mesmo que o grande público ainda desconheça sua importância. Moacir Santos deixou um legado que atravessa gerações de músicos e influencia artistas até os dias atuais.

O maestro faleceu há 18 anos, em 6 de agosto de 2006, na cidade de Pasadena, na Califórnia, deixando para trás uma obra que redefiniu os limites entre o folclore, a música erudita e o jazz. Sua morte marcou o fim de uma trajetória que começou nas terras semiáridas do Sertão do Pajeú, no agreste pernambucano, e atravessou dois continentes.

Origem no sertão pernambucano

Flores, pequeno município que integra os 17 que formam o Sertão do Pajeú, foi o berço onde Moacir Santos extraiu as primeiras notas que o caracterizariam. Criado nesse ambiente árido e culturalmente rico, o jovem músico começou sua formação através das bandas filarmônicas locais, espaços onde desenvolveu suas habilidades como compositor, instrumentista e arranjador.

A terra nordestina forneceu as bases rítmicas que permearam toda sua obra. O baião, o maracatu e as influências das culturas afro-brasileiras foram elementos que nunca abandonaram o pensamento musical de Moacir Santos, mesmo quando seu trabalho o levou para contextos internacionais sofisticados.

A trajetória rumo ao Rio de Janeiro

Em 1948, Moacir Santos chegou ao Rio de Janeiro em um momento crucial para a música brasileira. A capital carioca vivia o apogeu da era do rádio, e a Rádio Nacional consolidava-se como a instituição musical mais importante do país. Foi nesse cenário que o maestro pernambucano iniciou seu trabalho como saxofonista e arranjador, posições que ocupou durante toda a década de 1950.

O contato com a hegemônica Rádio Nacional permitiu a Moacir Santos aperfeiçoar um som singular, resultado da fusão de elementos diversos. Ali, ele burilou técnicas que sintetizariam anos depois em sua obra mais célebre e reconhecida internacionalmente.

Formação e mestres da música

Moacir Santos teve o privilégio de estudar com alguns dos maiores nomes da música erudita brasileira. Hans-Joachim Koellreuter, compositor alemão radicado no Brasil, e Cesar Guerra-Peixe, figura essencial na preservação e transformação da música folclórica nacional, foram seus mestres. Essa formação rigorosa em música clássica contrastava e complementava sua vivência com gêneros populares.

Paradoxalmente, enquanto recebia orientação dos maiores mestres da música erudita, Moacir Santos também transmitia conhecimento a gerações futuras. Baden Powell e João Donato, ambos monumentos da música brasileira, aprenderam com o maestro pernambucano, consolidando sua posição como pedagogo musical de primeira importância.

O álbum histórico 'Coisas'

Em 1965, Moacir Santos lançou 'Coisas', álbum que representa o ápice de sua visão artística. Esse trabalho é considerado hoje um dos títulos fundamentais da discografia brasileira, não apenas pela originalidade das composições, mas também pelos arranjos revolucionários que acompanharam cada faixa.

O disco foi calcado nas matrizes rítmicas africanas, mas incorporava de forma orgânica elementos do jazz, da música clássica e dos ritmos nordestinos. Essa síntese única chamou a atenção de Vinicius de Moraes, que homenageou Moacir Santos em verso do 'Samba da benção', lançado em 1966. Vinicius reconheceu em Moacir um artista multifacetado, louvando-o precisamente por sua capacidade de transitar entre universos musicais distintos.

Reconhecimento entre pares

Embora o público geral desconheça profundamente a obra de Moacir Santos, ele é venerado nos círculos especializados de música erudita e jazz. Instrumentistas e compositores reconhecem sua genialidade na criação de arranjos para orquestras e big bands, um trabalho que exigia domínio técnico incomparável.

Sua capacidade de fusão de ritmos permanece sem paralelo na história da música brasileira. O maestro transitou do folclore ao jazz sem perder raízes, mantendo sempre uma conexão visceral com as influências africanas que estruturavam seu pensamento musical.

Homenagens ao centenário

As celebrações pelos 100 anos de Moacir Santos incluem o 1º Festival Ouro Negro do Pajeú, conhecido como Festi'Ouro, realizado em Flores, Pernambuco. O festival, ocorrido em julho, representa um reconhecimento tardio mas significativo à importância do filho mais ilustre da cidade pernambucana para a história da música nacional.

Um patrimônio musical para o mundo

Embora Moacir Santos seja patrimônio inequívoco da música brasileira, sua obra transcendeu fronteiras nacionais. Sua migração para os Estados Unidos, onde viveu os últimos anos de sua vida, consolidou-o como um músico do mundo, alguém cuja linguagem musical era compreendida e apreciada em contextos internacionais.

O legado de Moacir Santos permanece vivo nas práticas de músicos contemporâneos que reconhecem sua influência. Sua obra continua sendo estudada e reinterpretada, servindo como ponte entre tradições distintas e como modelo de como a música brasileira pode dialogar com influências universais sem perder sua identidade profunda.

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