Diario Público 365 Días

Perícia identifica fragilidades na pontuação do Enem 2016

Perícia identifica fragilidades na pontuação do Enem 2016
Fonte: g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2018/07/22/pericia-feita-no-inep-indica-fragilidades-no-processo-de-pontuacao-das-medidas-de-provas-do-enem-2016.ghtml

Perícia realiza análise crítica do Enem 2016

Uma investigação técnica realizada junto ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) examinou detalhadamente as avaliações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2016, aplicado em duas ocasiões distintas, identificando vulnerabilidades significativas no processo de pontuação do Enem 2016. O procedimento foi contratado pelo Ministério Público Federal (MPF) em Uberlândia, Minas Gerais, fundamentado em ação judicial para verificar se a disparidade entre os números de participantes nas duas datas influenciou os resultados finais.

Contexto das duas aplicações em 2016

Durante 2016, movimentos de ocupação estudantil em instituições de ensino determinaram a necessidade de realizar o exame em duas ocasiões. A primeira aplicação ocorreu nos dias 5 e 6 de novembro, contando com participação de aproximadamente 5,8 milhões de estudantes. Posteriormente, em 3 e 4 de dezembro, menos de 170 mil candidatos realizaram a segunda edição do teste, refletindo uma redução considerável no número de participantes. Essa discrepância numérica constituiu o objeto principal da investigação que resultou na perícia Enem 2016.

Detalhes da perícia e metodologia empregada

O trabalho técnico foi conduzido por Tufi Machado Soares, professor vinculado ao Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), especialista em Teoria da Resposta ao Item (TRI), metodologia adotada no exame. Como coordenador da Unidade de Pesquisa do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) e ex-membro do conselho científico do Enem, Soares possuía competência técnica reconhecida para executar análise dessa magnitude. A perícia foi realizada entre 5 e 9 de fevereiro de 2018, nas dependências do Inep, resultando em laudo extenso com 207 páginas que documenta os achados.

Fragilidades identificadas na pontuação

O documento técnico revelou múltiplas fragilidades no processo de pontuação do Enem 2016, organizadas por ordem de importância. O primeiro ponto crítico refere-se ao número insuficiente de itens comuns previamente calibrados em pré-testes e fixados nas provas regulares. Em segundo lugar, foi identificado o tamanho inadequado das amostras de calibração em certos pré-testes utilizados para estabelecer parâmetros. Adicionalmente, o laudo aponta deficiências na precisão com que os resultados foram comunicados ao público e ausência de informações transparentes sobre a qualidade dos testes e das medidas empregadas.

Análise por disciplina

A análise comparativa entre as duas aplicações revelou padrões distintos conforme as disciplinas. Nas disciplinas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza, ambas as provas apresentaram níveis praticamente equivalentes de precisão em todos os níveis de proficiência, sugerindo testes bem calibrados. Contudo, diferenças substanciais foram observadas em Linguagens e Códigos, onde candidatos da primeira aplicação obtiveram vantagem relativa, e em Matemática, disciplina na qual os candidatos da segunda aplicação apresentaram melhor desempenho. As diferenças mais reduzidas concentraram-se na disciplina de Ciências da Natureza, embora a segunda prova dessa área tenha demonstrado nível de dificuldade marginalmente inferior.

O perito ressalvou, contudo, que não seria possível realizar análise de comparabilidade absolutamente conclusiva para todos os casos individualmente, considerando as dimensões do Enem. Soares indicou que cada situação específica exigiria exame individualizado, o que provavelmente não resultaria em conclusões definitivas para a maioria dos candidatos afetados.

Posicionamento do Inep diante dos achados

Quando informado sobre o resultado da perícia Enem 2016, o Inep respondeu por meio de nota afirmando não ter sido notificado oficialmente sobre conclusões específicas da análise. A instituição reafirmou confiança total na metodologia adotada desde 2009, ressaltando que ela é reconhecida nos contextos nacional e internacional. O instituto declarou que se pronunciaria oportunamente após receber notificação formal, e qualificou o laudo como representação de uma opinião isolada, independentemente de seu conteúdo técnico.

Próximas etapas do processo investigativo

O procurador da República Leonardo Macedo, responsável pelo inquérito civil que investiga possíveis irregularidades na aplicação do Enem 2016, informou que encaminhou a perícia ao Inep e aos estudantes que alegaram ter sido prejudicados. Macedo explicou que, dado o extenso volume e a falta de conclusão única do laudo, o procedimento será estruturado em etapas. Inicialmente, todos os interessados receberão prazo para análise; posteriormente, será marcada audiência pública para exposição de pontos de vista; apenas após essa etapa o MPF definirá eventual ação complementar.

O procurador destacou a necessidade de cautela no processo, descrevendo-o como lidar com questão de grande sensibilidade. As opções sob consideração para eventual resolução incluem requerer indenizações aos candidatos prejudicados, solicitar revisão de notas ou explorar outras alternativas disponíveis.

Histórico das reclamações de candidatos

A investigação do Ministério Público Federal iniciou-se após divulgação dos resultados em janeiro de 2017, quando estudantes de diversas regiões procuraram o órgão manifestando inconformismo quanto às notas da segunda aplicação. Análise preliminar das notas dos reclamantes revelou diferenças significativas em relação aos candidatos da primeira edição, frequentemente com desvantagem para os segundos. O procurador Macedo apontou que a metodologia da TRI, considerando quantidade de participantes, poderia ter prejudicado a equivalência das avaliações quando não adequadamente ajustada para diferenças fundamentais entre as duas aplicações, como proporção distinta de candidatos inexperientes e maiores taxas de abstenção na segunda ocasião.

Contexto das ocupações estudantis de 2016

A necessidade de realizar o Enem 2016 em duas datas resultou de movimento nacional de ocupações estudantis iniciado em outubro de 2016, que se expandiu por múltiplos estados. Os manifestantes protestavam contra diversas medidas governamentais, especialmente a reforma do ensino médio e a Emenda Constitucional 241. Levantamentos realizados pelo Ministério da Educação indicavam que ocupações em centenas de instituições comprometiam a realização do exame em dezenas de milhares de candidatos, tornando impossível organizar reaplicação dentro da mesma semana, prática habitual para situações pontuais de adiamento.

Impacto nas taxas de abstenção e participação

As duas aplicações apresentaram perfis distintos de participação. Na primeira rodada, de 5 a 6 de novembro, pouco menos de 6 milhões de candidatos compareceram às provas, registrando abstenção de aproximadamente 30%. Na segunda aplicação, realizada em 3 e 4 de dezembro, o universo de inscritos era consideravelmente menor (pouco mais de 277 mil), e a abstenção elevou-se a cerca de 40%, resultando em aproximadamente 166 mil estudantes completando as provas. Essa redução proporcional na participação constituiu aspecto importante da análise que fundamentou as preocupações sobre potencial inequidade na comparação de resultados.

Impacto legislativo e judicial do caso

Paralelamente à investigação conduzida pelo MPF, a aplicação do Enem 2016 em duas ocasiões foi questionada judicialmente em outras jurisdições, inclusive no Ceará. Naquela ocasião, solicitou-se à Justiça Federal a suspensão e cancelamento do exame, mas o pedido foi negado. A corte argumentou que, apesar das inevitáveis diferenças resultantes de redações e temas distintos, a garantia de isonomia seria assegurada pelos critérios de correção previamente estabelecidos. Essa decisão manteve a validade das duas aplicações, sem prejuízo das investigações subsequentes sobre possíveis distorções na metodologia de pontuação.

Também em Sociedade

Criptomoedas

Bitcoin (BTC) $65,198 ▲ 0.77%
Ethereum (ETH) $1,902 ▲ 1.7%
BNB $571 ▼ 0.06%
Solana (SOL) $78 ▲ 1.8%

Divisas

EUR/USD1.1426
USD/JPY162.3800