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Um parafuso que conquistou o mundo: a estratégia invisível dos EUA

Um parafuso que conquistou o mundo: a estratégia invisível dos EUA
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A pequena peça que mudou a história

Um parafuso de rosca de 60 graus pode parecer insignificante à primeira vista, mas este pequeno objeto industrial se tornou um dos instrumentos mais poderosos através do qual os Estados Unidos exerceram sua influência sobre o mundo. A história dessa conquista silenciosa começa nas ruas caóticas do século 20 e se estende até os dias atuais, influenciando a forma como produções industriais funcionam globalmente.

Roman Mars, criador do popular podcast 99% Invisible, observa que atualmente consideramos os padrões como algo tão natural que sequer pensamos neles. Contudo, nas primeiras décadas do século 20, a realidade era muito diferente. O mundo industrial era um verdadeiro caos de incompatibilidades.

Quando cada Estado tinha suas próprias regras

Na década de 1920, os próprios Estados Unidos enfrentavam confusão interna generalizada. Cada estado seguia seus próprios critérios, criando uma anarquia que afetava desde semáforos até componentes industriais. Um exemplo curiosamente absurdo ilustra essa desorganização: um semáforo verde em Nova York significava "pare", enquanto em Buffalo, cidade vizinha, significava exatamente o contrário.

Essa fragmentação não era apenas um incômodo administrativo. Representava um entrave econômico significativo que prejudicava a eficiência produtiva em escala nacional. A solução viria de uma figura que seria posteriormente lembrada com amargura, mas que antes disso contribuiu com uma herança extraordinária ao país.

Herbert Hoover e o poder dos sistemas

Herbert Hoover, que anos depois seria presidente durante a Grande Depressão, atuava como secretário de Comércio quando iniciou uma transformação radical. Antes de sua presidência desastrosa, Hoover foi a pessoa ideal para enfrentar o caos da despadronização.

Mars explica que Hoover simplesmente acreditava em sistemas. Era um burocrata clássico, convencido de que com os sistemas certos e uma boa organização da produção, todos prosperariam. Seu objetivo era a eficiência, elemento essencial para o bom funcionamento da economia.

Do caos à padronização: objeto por objeto

Hoover decidiu padronizar tudo: paralelepípedos, copos, taças, lençóis de hospital, molas de cama, forros de freio, pneus. Nada escapava do seu filtro de padronização, mesmo coisas que ninguém imaginaria que precisassem disso. Ele definiu quantas horas um copo de vidro com água fervente deveria resistir para ser comercializado (seis horas) e qual percentual de borracha nova um pneu deveria conter (70%).

Objeto por objeto, Hoover foi reduzindo o caos. Chegar a esses acordos exigiu longas discussões e confrontos entre reguladores e fabricantes, políticos e lobistas. Contudo, nenhum caso seria tão desafiador ou tão determinante quanto a disputa pela rosca do parafuso.

A rosca que mantém o mundo unido

Enquanto padronizar lençóis hospitalares afeta apenas fabricantes têxteis, padronizar o parafuso afeta todo mundo. Como destaca o historiador Daniel Immerwahr, autor de "How to Hide an Empire", mesmo objetos que não contenham parafusos são fabricados por máquinas que precisam deles.

O problema era a rosca, aquele filete em espiral que envolve o corpo do parafuso e precisa se encaixar em um ângulo preciso com a peça que o recebe. Um parafuso de 60 graus tem uma rosca formada por filetes com ângulo de 60°. À primeira vista, um parafuso de 55 graus e outro de 60 graus são indistinguíveis. A diferença só aparece quando um deles não encaixa onde deveria.

Immerwahr afirma que essa diferença não é fácil de perceber, mas "a diferença é tudo". Chegar a consenso com fabricantes de paralelepípedos foi simples, mas fazer o país inteiro concordar com um único padrão para parafusos era outra história. Ninguém queria sair perdendo, e ninguém queria adotar o padrão de outro.

A utopia de 1924

Apesar dos desafios, em 1924, os Estados Unidos conseguiram criar o padrão nacional para parafusos com rosca de 60 graus. Eufórico, Hoover declarou: "É um sonho realizado! A utopia é nossa."

Porém, o resto do mundo ainda falava outra língua quando o assunto era parafusos. Essa anarquia, que os Estados Unidos mal haviam conseguido domar dentro de suas próprias fronteiras, acabaria provocando problemas em escala global. No início do século 20, o desenvolvimento tecnológico avançava em ritmo vertiginoso. A cada ano, mais objetos eram fabricados, e começava a importar como eram feitos e se eram compatíveis entre si.

A Segunda Guerra Mundial e a incompatibilidade fatal

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, os problemas de incompatibilidade de padrões deixaram de ser apenas uma questão comercial para se tornar um assunto de vida ou morte. Os Estados Unidos se tornaram o grande fornecedor de armamentos, veículos e suprimentos dos Aliados.

Um funcionário canadense chegou a dizer que, no início da guerra, não havia um único fuzil nem uma única bala que pudesse ser compartilhada entre os Aliados. O custo dessa despadronização foi enorme: ao longo de toda a guerra, os Estados Unidos gastaram 600 milhões de dólares enviando parafusos, porcas e pinos extras para o exterior a fim de resolver problemas de incompatibilidade. Com esse dinheiro, seria possível construir cerca de mil aviões bombardeiros B-29.

O pôr do sol britânico e o alvorecer americano

Foi então que o Reino Unido, adotando um padrão de rosca de 55 graus, sentou-se para negociar com Washington. Immerwahr analisou as atas dessas reuniões, realizadas entre 1943 e 1945, descobrindo uma negociação que simbolizava o pôr do sol de um império e o alvorecer de outro.

Na primeira reunião, os britânicos disseram que estariam dispostos a discutir. Na segunda, afirmaram que considerariam reequipar suas fábricas. Na terceira, disseram que sim, fariam a adaptação, mas apenas temporariamente "para os fins da guerra". Na quarta, simplesmente cederam: adotariam o padrão americano.

Immerwahr resume: "Uma coisa era os Estados Unidos terem declarado sua independência, mas isso era o Reino Unido declarando sua dependência". O país estava admitindo que no reino dos objetos, um terreno de peso econômico imenso, seria Washington quem ditaria as regras. Uma derrota aceita enquanto as bombas nazistas ainda caíam sobre Londres.

A organização internacional de padronização

Depois que os Estados Unidos e todo o Império Britânico passaram a adotar o mesmo ângulo de rosca, o resto do planeta simplesmente seguiu o exemplo. Os padrões provocam um efeito manada: quando a maioria passa a fazer algo de determinada maneira, é mais vantajoso aderir rapidamente do que insistir em uma batalha perdida.

Em 1947, delegados de 25 países fundaram a Organização Internacional de Padronização (ISO), uma espécie de 'Nações Unidas dos objetos'. Aos poucos, o planeta começou a se ajustar ao tom ditado por Washington.

A placa de trânsito que conquistou o mundo

O exemplo favorito de Immerwahr é a placa de "pare". Um policial de Detroit, insatisfeito porque a placa quadrada de "STOP" era confundida com outras sinalizações, cortou seus cantos e criou o formato octogonal. A ideia se popularizou nos Estados Unidos e, em 1953, tornou-se padrão internacional: um octógono amarelo.

Apenas um ano depois, químicos da indústria americana desenvolveram uma tinta vermelha refletiva mais durável, e engenheiros de trânsito decidiram que o vermelho combinava melhor com semáforos. Sem mais, Washington mudou de amarelo para vermelho, obrigando o resto do mundo a se adaptar novamente.

Hoje, segundo cálculos feitos por Immerwahr, os países que adotam a placa octogonal vermelha representam 91% da população mundial, incluindo a Coreia do Norte.

Um novo tipo de império

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tinham bases militares e frotas espalhadas pelo mundo, além de uma das poucas economias industrializadas que continuavam de pé. Poderiam ter seguido o velho manual dos impérios: colônias, governadores e tropas de ocupação. Mas não foi o que fizeram.

Como aponta Immerwahr, o novo poder americano funcionava de forma diferente. Não abria mão da força nem do território, afinal existiam centenas de bases militares espalhadas pelo mundo, mas coisas como a rosca do parafuso não eram impostas por uma arma apontada. A força não foi completamente substituída; ela passou a ser complementada por mecanismos muito mais invisíveis.

Os Estados Unidos construíram uma rede de manufatura, padrões técnicos e cadeias de suprimentos que faziam com que boa parte do mundo dependesse de suas tecnologias, produtos e normas. Às vezes, não é preciso hastear uma bandeira quando os parafusos já foram apertados.

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