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Banco Master fabricou documentos falsos com Word e PDFs

Banco Master fabricou documentos falsos com Word e PDFs
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A fraude investigada pela Polícia Federal no Banco Master funcionava como uma espécie de linha de montagem digital

Um esquema sofisticado de falsificação documental foi desvendado pela Polícia Federal na investigação do Banco Master. Os documentos falsos eram produzidos através de uma engenharia complexa que envolvia ferramentas de escritório comuns, programas de tecnologia e manipulação de arquivos. O banco utilizou Word, PDFs e códigos para fabricar uma documentação fictícia que seria apresentada como créditos legítimos da Tirreno Consultoria ao Banco de Brasília (BRB).

Como funcionava o esquema de criação de documentos falsos

A investigação da Polícia Federal identificou uma estrutura organizada em etapas bem definidas. Primeiro, dados reais de clientes eram extraídos dos sistemas internos do banco. Em seguida, esses dados alimentavam documentos produzidos em grande escala. Páginas de assinaturas eram separadas através de programas desenvolvidos pela área de tecnologia. Depois, Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) eram assinadas digitalmente. Datas e informações que poderiam revelar a origem dos documentos eram removidas. Por fim, as diferentes peças eram reunidas em arquivos únicos em formato PDF.

A extração de dados dos sistemas internos

O primeiro passo do processo envolvia obter dados de clientes que já haviam realizado operações legítimas. Segundo a investigação, funcionários recorreram a informações armazenadas nos sistemas internos do banco, incluindo dados relacionados ao CredCesta, um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, pediu a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams. Vinicius reuniu os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv e executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx, que acabou enviada por e-mail no dia 3 de julho, às 16h57.

A planilha reunia informações cadastrais dos clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Esses dados passaram a servir de matéria-prima para a montagem dos documentos. Conversas entre integrantes da área de tecnologia mostram que havia problemas na base utilizada. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados, e Rafael observou que havia CPF de uma pessoa com apenas uma proposta de 2019, afirmando que a lista estava "meio furada".

A produção em massa de procurações com mala direta do Word

Com os dados reunidos, uma das etapas era produzir as procurações. Para isso, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou uma função comum do Microsoft Word: a mala direta. A ferramenta permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada registro.

Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta de trabalho Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras. O procedimento permitiu gerar 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025. A tecnologia, portanto, não era usada apenas para armazenar os documentos. Ela permitia reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas.

O uso de códigos para manipular PDFs e extrair assinaturas

A produção dos documentos falsos também envolveu a área de tecnologia do Banco Master de forma intensiva. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de aplicações em C# registradas no repositório GitHub do banco. Uma das funções criadas tinha uma finalidade específica: extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente a página de assinatura dos documentos originais.

A perícia também identificou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos de documentos, funcionando como peças intercambiáveis em um sistema de produção industrial.

A eliminação de datas e rastros digitais

Quando os documentos carregavam informações que poderiam revelar sua origem ou a verdadeira data de formalização, funcionários atuavam para apagá-las ou alterá-las. Em um dos casos analisados pela perícia, um Termo de Consentimento que trazia originalmente a data de 24 de fevereiro de 2023 teve esse registro removido em julho de 2025.

A conversa sobre a exclusão de datas

Para evitar que os documentos exibissem registros capazes de revelar sua origem, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora. A ordem aparece em uma conversa no Teams de 20 de junho, quando Allan enviou as mensagens: "e o termo de consentimento" e "e precisamos excluir a data".

A perícia identificou um exemplo concreto no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foi apagado visualmente. A alteração não eliminava, porém, todos os vestígios analisáveis pela perícia digital. O documento podia deixar de mostrar a data original na imagem, mas outros registros do arquivo e da assinatura digital permitiam reconstruir a cronologia.

O choque entre datas e registros criptográficos

Outra evidência forte da manipulação surgiu quando a perícia analisou as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust. Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa para assinar os documentos, separando 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.

As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader usando o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. Foi justamente nessa etapa que a perícia encontrou uma das evidências mais fortes da manipulação. Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma data anterior, por exemplo, 21 de janeiro de 2025. Já o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que aquele arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s. Mesmo quando a data apresentada no documento apontava para meses antes, o registro da assinatura digital indicava quando aquela peça havia efetivamente sido assinada.

A montagem final em arquivos PDF únicos

Depois de produzidas e alteradas as diferentes peças, elas precisavam ser apresentadas como um conjunto documental. Allan utilizou o PDF24 para juntar os arquivos em um único PDF por operação. A montagem reunia documentos como a CCB, a procuração e o Termo de Consentimento com a informação de data retirada. Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede chamadas Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras. Assim, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente eram transformados em um único dossiê.

A alteração de comprovantes bancários

A tentativa de apagar rastros chegou também aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O problema era que os documentos apresentavam informações que vinculavam as operações ao histórico original.

Allan queria retirar três elementos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações que apareciam no histórico estava a expressão "LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX". A conversa mostra que a dificuldade era fazer isso em escala. Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento, mas que seria impossível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes.

A estrutura triangular da fraude

A relação triangular entre a Tirreno, Master e o BRB funcionou como um esquema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuou como uma empresa de fachada, criada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master que, por sua vez, utilizou essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB. A equipe do Master montou uma "linha de montagem" para forjar amostras e simular a legitimidade das operações.

A estrutura foi descrita em relatório técnico-pericial da Polícia Federal, elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. O arquivo, intitulado "Investigações internas – Banco Master", tinha 30 slides e documentava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 para a produção de documentos relacionados à cessão de créditos consignados ao BRB.

O repasse de amostras até a cúpula do banco

A investigação também identificou o repasse de amostras da documentação falsificada até os níveis mais altos da administração. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um "kit dos 300 com assinatura digital". Alberto respondeu que providenciaria. Minutos depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos.

A documentação produzida na operação não ficava restrita aos funcionários responsáveis por sua montagem. Ela era compartilhada e utilizada por diferentes níveis hierárquicos da instituição, indicando uma coordenação amplamente distribuída na organização.

A preocupação com possíveis auditorias

As mensagens reunidas pela investigação mostram ainda que a preocupação não era apenas produzir os documentos, mas também explicar as inconsistências caso fossem questionadas. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. A resposta de Alberto foi direta: "esse tem que falar que foi erro operacional na selecao".

Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Fabrizio afirmou que a base já havia sido enviada anteriormente, mas apresentava um erro que precisaria ser corrigido. Alberto perguntou quais documentos seriam solicitados pela auditoria. Fabrizio respondeu que seriam CCBs e termos.

Conclusão: uma operação com limites tecnológicos

O conjunto de evidências descrito pela Polícia Federal revela uma cadeia organizada em etapas meticulosamente planejadas. Dados de clientes eram extraídos dos sistemas internos, alimentando documentos produzidos em escala, páginas de assinaturas eram separadas, CCBs eram assinadas digitalmente, datas e informações reveladores eram removidas, e as diferentes peças eram reunidas em arquivos únicos.

A tecnologia permitia acelerar praticamente todas essas etapas. A mala direta do Word produzia procurações em lote. As consultas aos bancos de dados reuniam informações cadastrais. Os programas em C# automatizavam o tratamento dos PDFs. O Adobe Acrobat era utilizado para as assinaturas digitais. E o PDF24 reunia os documentos finais.

No entanto, mesmo depois da retirada de datas e da alteração de documentos, a própria estrutura digital deixava vestígios irremediáveis. O choque entre as datas escritas nas CCBs e os registros das assinaturas digitais é um dos exemplos mais claros. A perícia conseguiu identificar que documentos apresentados com datas anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente, revelando a operação clandestina que tentava fazer uma sequência de arquivos fabricados em 2025 parecer a documentação de operações realizadas anos antes.

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