De la Espriella e Cepeda: duas visões antagônicas na disputa presidencial colombiana
De la Espriella e Cepeda representam duas Colômbias distintas
A disputa entre De la Espriella e Cepeda no segundo turno das eleições presidenciais colombianas evidencia uma profunda divisão nas visões de futuro para o país. Enquanto De la Espriella e Cepeda apresentam projetos radicalmente opostos, especialistas consultados pela BBC News Mundo argumentam que a polarização aparente mascara realidades mais complexas sobre o eleitorado colombiano.
O primeiro turno deixou o cenário acirrado: De la Espriella conquistou 43,7% dos votos contra 40,9% de Cepeda, apontando para um segundo turno competitivo. A expressão "um país dividido em dois" circulou amplamente após os resultados, refletindo a percepção de uma nação fragmentada em suas preferências políticas e ideológicas.
Os projetos opostos: direita linha dura versus esquerda reformista
De la Espriella e Cepeda apresentam agendas governamentais fundamentalmente distintas. O advogado outsider De la Espriella chega ao segundo turno com uma proposta conservadora e linha dura, alinhando-se com figuras como Donald Trump nos Estados Unidos, Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. Seu discurso enfatiza segurança, autoridade estatal e valores cristãos como pilares para restaurar a ordem no país.
Por outro lado, o senador e filósofo Cepeda representa a continuidade da agenda progressista do atual presidente Gustavo Petro. Sua plataforma inclui reformas sociais abrangentes, um enfoque conciliador em segurança e políticas voltadas à inclusão de populações historicamente marginalizadas, como afro-colombianos e comunidades indígenas.
No campo econômico, as divergências entre De la Espriella e Cepeda são igualmente marcantes. Enquanto o candidato de direita propõe reduzir o tamanho do Estado e diminuir impostos para empresas, Cepeda aposta no fortalecimento estatal, na transformação do campo como motor econômico nacional e no apoio às pequenas empresas.
A divisão regional: periferia versus centro
Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, observa que De la Espriella e Cepeda encontram seus principais apoiadores em regiões distintas. Desde 2016, quando o plebiscito sobre o acordo de paz dividiu a Colômbia, há uma tendência consistente de voto regional. As regiões periféricas—litorais, Amazônia e fronteira com a Venezuela—votam pela esquerda, enquanto as áreas centrais, atravessadas pelos Andes, favorecem candidatos de direita.
Essas divisões não são meramente políticas, mas refletem diferenças econômicas estruturais. O centro colombiano vive de um sistema agroindustrial integrado às cidades, enquanto nas periferias predomina uma economia extrativista. Essas regiões periféricas também são algumas das mais pobres, excluídas e afetadas pela violência relacionada ao narcotráfico e disputas por rotas ilegais.
Cepeda obteve seus melhores resultados no primeiro turno justamente nessas áreas periféricas, onde o Pacto Histórico apostou na inclusão de seus habitantes. De la Espriella e Cepeda refletem, portanto, essas disparidades territoriais enraizadas na geografia e na economia colombiana.
Dinâmicas urbanas e estratificação de renda
Nas grandes cidades como Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla, as dinâmicas eleitorais são mais complexas. Basset observa que os estratos de renda mais baixa tenderam a votar em Cepeda no primeiro turno, enquanto os eleitores de renda média e alta preferiram De la Espriella. Este padrão reforça a tese de que De la Espriella e Cepeda capturam não apenas preferências ideológicas, mas também diferenças socioeconômicas profundas.
Herança histórica e continuidades políticas
O historiador Felipe Arias Escobar identifica raízes históricas nessa divisão. O voto pelo Partido Conservador historicamente dominou as regiões andinas, enquanto o Partido Liberal prevalecia no litoral. Embora esses partidos tenham perdido influência no século 20, suas bandeiras ressurgem em movimentos contemporâneos.
De acordo com Escobar, há continuidades que transcendem a dicotomia esquerda-direita. Setores que votavam no Partido Conservador e depois no ex-presidente Álvaro Uribe agora simpatizam com De la Espriella e sua versão colombiana das direitas populistas. Similarmente, aqueles que apoiaram o Partido Liberal e o ex-presidente Juan Manuel Santos migram para opções de esquerda como Cepeda e Petro.
Não são eleitores mecânicos: cidadanias voláteis
Escobar adverte contra a visão de um eleitorado puramente mecânico. Cidadanias diversas e voláteis caracterizam o corpo eleitoral colombiano: o mesmo eleitor que votou em Uribe em 2006 poderia ter votado em Petro em 2018. De la Espriella e Cepeda não simplesmente herdam blocos de votos estáticos, mas competem por um eleitorado mutável.
O evento de 2021, quando explosões sociais eclodirão contra o modelo econômico e a injustiça sob o governo conservador de Iván Duque, marcou profundamente essa dinâmica. Aqueles protestos, reprimidos com força criticada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, mobilizaram demandas identitárias e novas cidadanias. Os ecos desse movimento reverberam nas eleições atuais.
Demandas identitárias versus reação conservadora
Felipe Arias Escobar destaca que há um grupo com demandas identitárias que se visibilizou na explosão de 2021 e agora entra em choque com movimentos de reação. Analistas vinculam o voto em Petro e Cepeda a essa nova cidadania mobilizada, enquanto atribuem o fenômeno De la Espriella a uma recomposição das direitas que busca frear esse impulso progressista.
Valores e autoridade em transição
O cientista político Juan Fernando Giraldo observa que as identidades políticas colombianas se tornaram menos estáticas. Nos anos 1940 e 1950, dizer-se conservador refletia tudo sobre a identidade, interesses e família de uma pessoa. Isso não ocorre mais na Colômbia contemporânea.
Os valores e a autoridade são centrais na campanha de De la Espriella. O candidato promove um discurso linha dura contra o crime e princípios religiosos cristãos como meio de trazer segurança e moralidade. Contudo, Giraldo nota que grande parte do eleitorado possui posições menos intensas sobre esses temas, não subscrevendo completamente à dicotomia entre maior ou menor autoridade estatal.
O grande bloco cidadão desengajado
Giraldo identifica um bloco cidadão significativo com posições moderadas que não se engaja intensamente com as categorias de esquerda ou direita. Essas pessoas tendem a se informar e se expressar menos, indicando que grande parte do eleitorado pode votar em candidatos muito distantes entre si sem que isso represente uma verdadeira polarização do país.
Essa realidade desmente uma "leitura superanalisada da elite". Quando se analisa as cidades e o meio rural, as conversas não giram tanto em torno de posicionamentos ideológicos, mas emergem preocupações sensíveis de uma cidadania que muda facilmente. De la Espriella e Cepeda, portanto, podem vencer ou perder não por representarem fielmente duas Colômbias opostas, mas por conseguirem capturar e comunicar essas demandas fluidas e práticas.
Efetividade das estratégias de marketing político
Giraldo argumenta que o marketing de De la Espriella soube explorar mensagens claras sobre família, autoridade e combate ao crime, mostrando-se particularmente eficazes. Da mesma forma, a aposta da esquerda em se unificar em torno de Petro traduziu-se em elevada intenção de voto para Cepeda, ainda que nem todos os votantes em Cepeda necessariamente se identifiquem como de esquerda ou defendam direitos das minorias.
A campanha de De la Espriella e Cepeda reflete, portanto, uma complexidade que vai além da simples polarização anunciada. O segundo turno será decidido não apenas pela divisão territorial e ideológica, mas pela capacidade de cada candidato em mobilizar um eleitorado dinâmico e multifacetado que responde a mensagens práticas e identitárias que evoluem constantemente.
