Escafandristas reinterpreta Buarque com sofisticação

Quarteto carioca apresenta nova visão da obra de Chico Buarque
O quarteto carioca Escafandristas lança seu primeiro álbum, intitulado "Escafandristas cantam Buarque", reunindo 15 faixas que reinterpretam composições do maestro em estilo sofisticado e inovador. Formado em 2024 com o propósito específico de explorar diferentes perspectivas do cancioneiro de Chico Buarque, o grupo apresenta agora seu trabalho discográfico inicial, estrategicamente lançado na véspera do 82º aniversário do compositor carioca.
A abordagem dos Escafandristas diferencia-se significativamente da lógica do cover tradicional. Sob direção musical de Thiago Amud, que assume também as funções de vocalista e violonista, o grupo integra ainda Alice Passos (voz, flauta, violão e percussão), Luisa Lacerda (voz e violão) e Renato Frazão (voz e baixo). Embora preservem integralmente as melodias e letras originais, os integrantes modificam as harmonias e ritmos, conferindo ao álbum Escafandristas uma identidade sonora própria.
Reinterpretação harmônica e arranjos refinados
O trabalho apresenta harmonização vocal refinada que o posiciona longe do universo do karaokê. Músicas como "Brejo da cruz" (1984), gravada com a participação do cantor Giuliano Eriston, e "Sonhos sonhos são" (1998), composição menos divulgada do repertório buarquiano, exemplificam o cuidado estético aplicado à reinterpretação.
A abertura do álbum com "Construção" (1971) demonstra particular maestria na desvinculação do arranjo original criado por Rogério Duprat para a referência gravação autoral. Este trabalho inicial estabelece o tom sofisticado que permeia as 15 faixas do álbum Escafandristas cantam Buarque.
Duetos e interpretações vocais memoráveis
O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" (1989) revela afinidade vocal entre Amud e a tessitura de Chico Buarque. Esta compatibilidade estende-se igualmente a Renato Frazão, integrante masculino adicional do quarteto, cuja interpretação destaca-se particularmente no samba "Cotidiano" (1971).
O solo de Frazão em "Cotidiano" sobressai pelo arranjo que evoca a repetição monótona da vida conjugal, intercalando pausas sincronizadas aos versos da composição original. Este trabalho demonstra compreensão profunda da poética buarquiana e da necessidade de transpô-la através de inovações sonoras.
Citações musicais e camadas de significado
O álbum incorpora sete citações musicais estrategicamente distribuídas em seis das 15 faixas, enriquecendo a experiência auditiva. "Futuros amantes" (1993), cujo título referencia o nome do grupo em verso da letra original, recebe inserção de "Eu te amo" (composição de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim, 1980).
De forma similar, "Corrente" (1976) articula-se com citação de "Mambembe" (1972). O samba "Morena dos olhos d'água" (1966) emerge enriquecido pela menção de "Morena do mar" (1972), clássico de Dorival Caymmi, além de incorporar lembrança da ciranda "Na ilha de Lia, no barco de Rosa" (parceria de Chico Buarque e Edu Lobo de 1988).
Participações especiais e momentos emocionais
O álbum Escafandristas conta com participação notável de Ruy Guerra, parceiro histórico de Chico na composição de "Fado tropical" (1973). Guerra recita versos em "O que será (À flor da terra)" (1976), acompanhado predominantemente por canto a capella do quarteto, elevando o impacto emocional deste momento discográfico.
Momento particularmente afetivo ocorre em "As minhas meninas" (1987), onde as cinco netas de Chico Buarque – Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa – reúnem-se em estúdio pela primeira vez para cantar ao lado dos Escafandristas. A gravação incorpora citação de "Acalanto para Helena" (1971), canção de ninar composta por Chico para sua filha Helena, mãe de duas das netas presentes.
Conclusão: atemporalidade e sofisticação
O encerramento do álbum com "Tempo e artista" (1993) sintetiza a proposta central dos Escafandristas. O registro terno desta composição reafirma que o quarteto (re)modela a obra do compositor segundo feitio sofisticado do grupo, em período histórico no qual Chico Buarque já consolidou sua glória artística e vislumbra o infinito reservado aos maiores artistas de cada geração.
Gravado no estúdio da gravadora Biscoito Fino, o álbum Escafandristas cantam Buarque apresenta musicalidade impecável distribuída ao longo de 15 faixas que evidenciam compreensão profunda da poética e sonoridade buarquiana, ao mesmo tempo que estabelecem identidade sonora própria e contemporânea para estas reinterpretações.
