Témiscaming enfrenta colapso econômico com fábrica fechada por tarifas

A Ameaça às Tarifas Trump Compromete Economia Local de Témiscaming
As tarifas Trump implementadas pelos Estados Unidos criaram uma situação crítica para a pequena cidade de Témiscaming, Quebec, onde a economia depende fundamentalmente da indústria papeleira. A fábrica de papel, que serviu como motor econômico por mais de um século, encontra-se paralisada indefinidamente, deixando centenas de trabalhadores sem renda e gerando pânico entre os moradores sobre o futuro da comunidade. Os efeitos das tarifas Trump transcendem os números econômicos, impactando profundamente o tecido social de uma localidade inteira construída ao redor dessa unidade produtiva.
Ao atravessar o rio Ottawa em direção a Témiscaming, é impossível ignorar a presença imponente da fábrica de papel que domina a paisagem. A própria cidade foi erguida há mais de um século, estruturando-se ao redor do moinho e das florestas abundantes da região, repletas de pinheiros, bétulas, abetos e pinheiros-do-oregon. Desde então, o destino de Témiscaming permaneceu indissociavelmente ligado ao sucesso da indústria papeleira. Contudo, após o colapso nas negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos e a imposição de tarifas de até 50% por Trump, essa realidade mudou dramaticamente.
Paralisia da Fábrica e Desemprego em Massa
No início de outubro, a proprietária americana da fábrica, a corporação RYAM, decidiu manter a unidade em uma paralisação por razões econômicas de duração indeterminada. A decisão deixou praticamente todos os 360 funcionários da fábrica desempregados, embora consigam se manter temporariamente com o pagamento parcial fornecido pelo programa de alívio tarifário do governo canadense. Essa situação precária ilustra a vulnerabilidade de comunidades que dependem de um único empregador principal, especialmente quando fatores internacionais escapam ao controle local.
Para muitos moradores, como Nadine Suley, o fechamento não representa apenas a perda de um emprego, mas sim o desaparecimento de um modo de vida inteiro. Suley, que não é uma «garota da cidade» e regularmente pratica caça de alces durante a temporada de caça, ironicamente sugere que todos precisarão da carne fornecida por animais selvagens durante este ano. Sua afirmação mais profunda, porém, ressoa com urgência: «Não é apenas um emprego. É a nossa casa». Ela percebe as tarifas Trump como um ataque pessoal dirigido à sua comunidade e à sua forma de existência.
Colapso Imobiliário e Êxodo Populacional
Os efeitos das tarifas Trump manifestam-se imediatamente no mercado imobiliário de Témiscaming. O valor dos imóveis despencou praticamente da noite para o dia, com placas de «Vende-se» proliferando nos jardins das residências modestas de classe média que caracterizam a cidade. O temor generalizado aponta para um êxodo inevitável de profissionais de serviços essenciais, desde funcionários de supermercados até médicos dos pequenos hospitais locais, agravando ainda mais a crise econômica e social.
Ronnie Raymond, cujos familiares trabalharam na fábrica há gerações, articula o horror coletivo com clareza desoladora: «Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma. Não vai sobrar nada, absolutamente nada. Na verdade, não haverá trabalho para ninguém. É assustador». Essa perspectiva não representa meramente pessimismo, mas sim uma avaliação realista baseada na estrutura econômica monolítica da comunidade.
Contexto Nacional e Disparidades Regionais
Em termos gerais, a economia canadense tem resistido à guerra comercial contínua com os Estados Unidos, seu maior parceiro comercial. A taxa de desemprego nacional permaneceu praticamente estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas Trump, ocorrendo simultaneamente com um crescimento econômico moderado, porém consistente. Contudo, essa análise agregada mascara focos de dificuldade extrema em setores específicos diretamente atingidos pelas tarifas americanas de até 50%, incluindo aço, alumínio, automóveis e, no caso de Témiscaming, madeira, celulose e papel.
Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical cujo pai e avó também trabalharam na fábrica, questiona a adequação da resposta governamental: «Se houvesse uma perda de 10% dos empregos em Toronto, Montreal, Quebec ou Vancouver, isso estaria em todos os noticiários e pressionaria muito os governos a tomarem alguma providência». A constatação aponta para uma disparidade na atenção política concedida a crises em grandes centros urbanos versus comunidades rurais e pequenas.
Efeitos em Cadeia no Setor Florestal Regional
A crise econômica provocada pelas tarifas Trump ameaça desencadear efeitos em cadeia por todo o setor florestal da região, afetando não apenas a fábrica, mas também serrarias e empresas de transporte rodoviário. Um empreiteiro local relatou à BBC ter precisado demitir 13 funcionários em resposta direta à paralisia da unidade papeleira. Essa multiplicação de perdas de empregos evidencia como uma comunidade pequena e especializada torna-se vulnerável a choques econômicos externos.
Lições do Passado: A Mobilização de 1973
A última ocasião em que Témiscaming enfrentou ameaça tão grave à sua existência ocorreu em 1973, quando o então proprietário americano da fábrica ameaçou fechá-la. Essa ameaça motivou uma resposta extraordinária: trabalhadores e gestores locais se uniram para comprar coletivamente a empresa, transformando-a na Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense com unidades na América do Norte e na França. Esse precedente histórico inspira esperança atual entre os moradores, que buscam mobilizar uma coalizão para recomprar a fábrica da RYAM, que a adquiriu em 2017.
Frank Dottori, aposentado aos mais de oitenta anos, liderou pessoalmente esse esforço na década de 1970 como engenheiro da fábrica. Ele recorda ter sido «educadamente colocado para fora» pelo então primeiro-ministro de Quebec durante seu primeiro pedido de apoio. Apesar dessa rejeição inicial, o grupo conseguiu avançar com o plano, contando com assistência sindical e de um ex-funcionário com experiência em gestão e confiança extraordinária. Dottori atribui o sucesso ao carisma poderoso desse líder natural e acredita que a nova geração necessita de alguém igualmente ousado. Ele afirma: «O grupo local tem alguém assim? É muito improvável. Eles podem conseguir? Sim, se se organizarem».
Mobilização Atual e Busca por Recompra
Os trabalhadores atuais de Témiscaming esperam repetir o feito de 1973, mobilizando uma coalizão de moradores interessados em recomprar a fábrica da RYAM. Lefebvre expressa essa esperança com uma metáfora esperançosa: «Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar». Contudo, ele argumenta que isso só será viável com ajuda significativa do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, seja por meio de alívio tarifário ou apoio financeiro direto.
Suley observa que, desde sua eleição, o primeiro-ministro enfatizou a importância de «comprar produtos locais» e apoiar trabalhadores canadenses. Para ela, o apoio governamental à iniciativa de recompra da fábrica representaria uma materialização concreta dessas promessas eleitorais. Em resposta às inquirições sobre a possibilidade de venda, a RYAM afirmou à BBC que não comentaria sobre eventuais vendas ou compradores.
Resposta Governamental e Críticas
O prefeito Alain Gauthier não culpa a RYAM pela paralisia, descrevendo as tarifas americanas como «uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá». Ele reclama que o governo federal em Ottawa responda com suas próprias tarifas sobre produtos de papelão importados dos Estados Unidos, que atualmente entram no Canadá sem cobrança de tarifa. Gauthier lamenta que embora políticos afirmem que o Canadá está em guerra econômica com os Estados Unidos, «na realidade, não vemos absolutamente nenhuma evidência de que medidas de guerra estejam sendo tomadas». Sua comparação é contundente: «Sentimos que entramos em uma guerra armados com pistolinhas de água de criança para revidar».
Alguns moradores, como Lefebvre, argumentam que o setor florestal recebeu menor atenção nos esforços para salvar outras indústrias afetadas pelas tarifas, particularmente siderúrgica e automobilística. Na mesma época, a ministra da Indústria Mélanie Joly ameaçou impor sanções financeiras à Stelco — uma das maiores siderúrgicas do Canadá — ou forçar a venda de ativos caso a empresa avançasse com planos de demitir cerca de 500 funcionários. A Stelco, localizada em Hamilton próximo a Toronto, pertence à americana Cleveland-Cliffs, que se comprometeu a manter empregos canadenses quando a adquiriu em 2024.
Investimentos em Outros Setores e Ausência em Témiscaming
Carney e o primeiro-ministro de Ontário Doug Ford anunciaram um pacote de investimentos de quase C$ 9 bilhões (aproximadamente US$ 6,4 bilhões) para apoiar os setores siderúrgico e automobilístico da província. Segundo seus comunicados, os recursos modernizarão indústrias, fortalecerão demanda interna e abrirão novos mercados no exterior. Contudo, Témiscaming permanece ausente dessa atenção e investimento prioritário.
Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois eleito por Témiscaming, manifestou preocupação profunda sobre o que considera falta de ação do governo Carney para apoiar a cidade e o setor florestal de Quebec mais amplamente. Um porta-voz da ministra Joly afirmou que o governo disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas, além de lançar um programa para ajudar empresas afetadas pelas tarifas a obter capital de giro. Sobre Témiscaming especificamente, o porta-voz afirmou que o governo «está trabalhando ativamente com todas as partes envolvidas para encontrar uma solução viável».
Magnitude das Tarifas e Impacto na Produção
Em agosto, após fracasso nas negociações comerciais, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre aproximadamente C$ 28 bilhões em produtos canadenses, incluindo madeira, papel, celulose, artigos de papelaria e caixas. O Canadá respondeu com tarifas retaliatórias equivalentes, «dólar por dólar». A fábrica de Témiscaming, que produz papelão para embalagens de alimentos congelados na América do Norte e bilhetes de loteria instantânea encontrados em lojas de conveniência, envia aproximadamente 75% de sua produção para os Estados Unidos. A dependência comercial dessa proporção torna a paralisia praticamente inevitável sob pressão tarifária dessa magnitude.
Perspectivas Futuras e Esperança
Trump justifica essas tarifas argumentando que impulsionam a indústria manufatureira americana e geram empregos — essencialmente uma tentativa de proteger trabalhadores estadunidenses que poderiam enfrentar destino similar ao dos funcionários de Témiscaming. Muitos trabalhadores locais depositam esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, esperando que resultados eleitorais aumentem pressão sobre Trump — cujos índices de aprovação vêm caindo — para reduzir algumas tarifas ao Canadá. Suley expressa essa esperança com pragmatismo: «Aceitaremos qualquer ajuda que pudermos receber. Há americanos que se importam com o que está acontecendo, e isso também os está afetando».
Há sinais de que o governo Trump está considerando essa pressão. Na semana anterior, algumas tarifas sobre produtos canadenses foram suspensas após articulação da senadora republicana pelo Maine Susan Collins, que concorre à reeleição em novembro. As mudanças, porém, não contemplam produtos fabricados em Témiscaming. Suley e outros trabalhadores esperam encontrar solução rapidamente, antes da chegada do inverno, quando temperaturas abaixo de zero podem congelar equipamentos da fábrica paralisada, provocando danos que tornariam sua reabertura ainda mais difícil. Lefebvre, mantendo determinação inabalável de realizar o sonho de devolver a fábrica aos moradores, encerra com metáfora esportiva resoluta: «Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final».
