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146 Deportados Chegam à Venezuela e Enfrentam Tragédia nos Terremotos

146 Deportados Chegam à Venezuela e Enfrentam Tragédia nos Terremotos
Fonte: g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/02/o-voo-da-tragedia-os-146-deportados-pelos-eua-no-dia-dos-terremotos-que-ficaram-sob-os-escombros-na-venezuela.ghtml

O Voo que Chegou no Dia da Catástrofe

No dia 24 de junho, um avião com 146 migrantes deportados dos Estados Unidos chegou à Venezuela, marcando o início de uma das tragédias mais impactantes envolvendo migrantes deportados Venezuela naquele ano. Poucas horas após o pouso, a região foi devastada por um duplo terremoto que deixou milhares de vítimas e transformou aquele que deveria ser um dia de reencontro familiar em uma catástrofe humanitária.

O voo 164, operado pela empresa Global X, transportava 120 homens, 19 mulheres, 5 meninos e 2 meninas de volta para casa, como parte da política de deportação do governo Trump. Os passageiros foram recebidos pela Missão Volta à Pátria, programa governamental designado para reintegrar os repatriados, e levados para o Hotel Santuário La Llanada em La Guaira, capital do Estado de Vargas.

O edifício de quatro andares onde realizavam procedimentos administrativos, sanitários e de segurança desabou completamente durante o terremoto, deixando um saldo trágico de mortes e desaparecimentos que permanece impreciso até hoje.

Um Telefonema Não Atendido Salvou Uma Vida

Orlando Torres é um dos poucos sobreviventes cuja vida foi salva por uma sequência de coincidências. Ele estava em um edifício anexo ao principal, tentando fazer uma ligação telefônica para seu irmão conforme exigido pelos procedimentos do Sebin, o órgão de inteligência responsável pelo processo de reintegração.

Quando o irmão não atendeu, Torres precisou esperar alguns minutos para tentar novamente. Esses poucos minutos foram vitais. Enquanto ele permanecia fora do prédio principal, o terremoto atingiu com força devastadora, reduzindo o edifício onde estava a maioria dos deportados a um amontoado de escombros.

Quando o tremor começou, Torres foi lançado ao chão, colocou uma cadeira sobre a cabeça e correu até a saída. Apenas momentos depois, o prédio onde ele deveria estar naquela noite desabou completamente, levando consigo quase todos os seus companheiros de viagem.

Resgate Improvisado: Solidariedade Entre Deportados

Nos primeiros momentos após o terremoto, os sobreviventes se viram forçados a se organizarem para seus próprios resgates, uma vez que os serviços de emergência demoraram horas para chegar ao local. As autoridades locais do Sebin inicialmente não reagiram de forma efetiva, concentrando seus esforços em resgatar seus próprios agentes.

Pedro, um dos sobreviventes, ficou preso sob os escombros com as pernas imobilizadas e a cabeça contra o chão. Ele permaneceu naquela posição dolorosa por um tempo considerável, cercado por outros homens igualmente machucados e em desespero. "Muitos de nós ficamos amontoados. Nós gritávamos. Era uma escuridão, sentíamos como o pó entrava nos nossos narizes quando respirávamos", relatou ele.

O que salvou Pedro foi a determinação de outros migrantes deportados que conseguiram se libertar. Eles trabalharam para abrir um buraco suficiente para que Pedro pudesse se arrastar até a saída, demonstrando gestos de solidariedade que marcaram os relatos de sobrevivência.

Ninoska Gutiérrez viveu experiência semelhante. Ela estava em um quarto com mais de 10 mulheres quando começou o terremoto. Ao tentar escapar, caiu no caos generalizado e teve as pernas presas sob o teto e paredes que desabaram. "Deus meu, não é possível, oito anos fora do meu país e vou chegar para minha família em um caixão", pensou ela naquele momento de horror.

Alguém começou a retirar os escombros que a prendiam até que conseguisse mover as pernas novamente. Um dos sobreviventes a ajudou a sair através de uma abertura no teto desabado. "Ali, quem conseguiu sair, saiu por seus próprios meios, pela nossa vontade de sobreviver", relatou Gutiérrez, ressaltando a ausência inicial de auxílio das autoridades.

José Navas estava no terceiro andar quando o terremoto atingiu. Junto com 10 outros homens vivos e conscientes, ele trabalhou para abrir um buraco nos escombros com a ajuda de outro homem. Essa colaboração entre desconhecidos, pessoas que haviam se conhecido apenas horas antes, foi determinante para a sobrevivência de muitos.

O Vácuo de Informação e a Falta de Resposta Oficial

As autoridades venezuelanas não forneceram um balanço público oficial sobre o destino específico dos 146 migrantes deportados. Contagens informais iniciais baseadas em testemunhos de sobreviventes indicavam que apenas 12 pessoas teriam sobrevivido, embora relatos posteriores sugerissem números potencialmente maiores.

O Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos forneceu apenas uma breve declaração: "Este voo chegou com segurança à Venezuela e todos os estrangeiros ilegais a bordo foram devolvidos ao seu país." Após isso, as autoridades americanas se desobrigaram de qualquer responsabilidade adicional.

Os bombeiros só chegaram ao hotel por volta das 23 horas do dia 24 de junho, aproximadamente cinco horas após o terremoto. Nos relatos dos sobreviventes, durante aquelas primeiras horas críticas, os agentes do Sebin estavam em estado de choque, não fornecendo assistência efetiva aos feridos.

A Angústia das Famílias na Busca por Seus Entes Queridos

Na tarde do terremoto, familiares dos migrantes deportados começaram a perguntar nas redes sociais pelo destino de seus entes queridos. Eles percorreram hospitais e necrotérios desesperadamente tentando localizá-los.

José Rincón procurava seu neto Abelardo Rincón, de 23 anos, que havia morado em Atlanta por seis anos, casado e esperando uma filha. "Fui reconhecer mais de 200 corpos", contou ele. "Eu os revisei um por um, para ver se o encontrava, e nada." Ele estava desesperado no hotel, mas o Sebin havia trancado o acesso aos escombros.

Paola Chacón procurava seu primo Darwin Eliécer Serrano López, de 35 anos, que havia retornado após quatro anos nos Estados Unidos. "Darwin fez uma ligação para meu irmão às 5h32 da tarde e naquele momento tomamos conhecimento de que ele estava aqui. Aconteceu a tragédia, viemos buscá-lo. Dirigimos a noite toda", relatou ela.

As famílias criaram grupos nas redes sociais que chegaram a ter mais de 500 membros, compartilhando pistas e informações para tentar localizar seus entes queridos. Eles exigiam justiça nas redes sociais, questões que permanecem sem resposta satisfatória.

A Alegria Efêmera de Voltar para Casa

Nos momentos finais do voo 164 antes do pouso, apesar de estarem algemados e amarrados nos pés e na cintura, os migrantes deportados expressavam sua alegria de voltarem para casa. "As pessoas aplaudiam, havia muita alegria. Você sabe como somos nós, venezuelanos", recordou Pedro.

As esperanças, ainda que modestas, preenchiam a aeronave. Um migrante falava sobre as praias da Venezuela que não eram tão frias quanto as dos Estados Unidos. Outros contavam histórias de suas experiências de detenção, compartilhando sonhos de reencontro com famílias que não viam havia anos.

No hotel, antes do terremoto, os deportados se reuniram em quartos separados por gênero, compartilhando histórias de suas vidas e experiências de deportação. Era um momento de camaradagem entre pessoas que, na maioria dos casos, não se conheciam, ligadas apenas pelo destino comum de retorno forçado.

Gestos de Solidariedade em Meio ao Caos

Mesmo em circunstâncias tão trágicas, a história dos migrantes deportados da Venezuela está repleta de gestos de solidariedade humana. Batizados com apelidos típicos venezuelanos como "el gocho", "el llanero" ou "el viejo", eles ajudavam uns aos outros durante a tragédia.

Um deles recebeu o apelido de Superman por ter supostamente saltado por uma janela durante o terremoto, não só se salvando, mas também ajudando a resgatar outras pessoas presas nos escombros. Ele ainda conseguiu uma moto para ir até a sede do Sebin em Maiquetía pedindo ajuda.

Familiares dos migrantes deportados também demonstraram solidariedade uns com os outros, criando redes de apoio e informação nas redes sociais. Unidos pela desolação, eles compartilhavam pistas e se confortavam mutuamente, exigindo transparência e justiça pelas vidas perdidas.

Questionamentos Sem Resposta

A tragédia que atingiu os 146 migrantes deportados da Venezuela permanece envolvida em questionamentos sem respostas satisfatórias. Muitos familiares exigem saber se o procedimento que os mantinha no hotel era realmente necessário, argumentando que se tivessem sido liberados para suas famílias imediatamente após o pouso, muitas vidas teriam sido salvas.

A falta de resposta oficial, a demora nos resgates e a ausência de transparência sobre o número exato de mortes criaram um clima de incerteza e frustração. As autoridades americanas se desobrigaram de responsabilidade uma vez que os migrantes deixaram a custódia do ICE, enquanto as autoridades venezuelanas não forneceram informações públicas detalhadas sobre o ocorrido.

Os sobreviventes e familiares continuam buscando respostas, reconhecimento e, em muitos casos, apenas a entrega dos corpos de seus entes queridos para um enterro digno. A história dos 146 migrantes deportados continua sendo um testemunho das vulnerabilidades enfrentadas por aqueles que são deportados e das consequências imprevistas de políticas de imigração severas.

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