Diario Público 365 Días

Crise do Ueno provoca renúncia de presidente do BC paraguaio

Crise do Ueno provoca renúncia de presidente do BC paraguaio
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A crise do Ueno e seus impactos no Paraguai

A crise do Ueno, maior instituição emissora de cartões de crédito do Paraguai, provocou a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, nesta terça-feira (3 de novembro). O banco digital, que atende aproximadamente 3 milhões de clientes, enfrenta dificuldades financeiras significativas e está sob investigação das autoridades competentes. A situação intensificou a pressão política sobre o governo do presidente Santiago Peña e levantou preocupações sobre a estabilidade do sistema financeiro nacional.

Problemas financeiros e falhas regulatórias

O Ueno apresenta problemas estruturais graves em sua situação financeira. Após revisão de seus balanços, o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido pelos órgãos reguladores. Este indicador mede a capacidade de pagamento e é crucial para avaliar a saúde financeira de qualquer banco. A queda abrupta demonstra deterioração significativa nas contas da instituição e gerou alerta entre supervisores financeiros.

O Banco Central do Paraguai iniciou procedimento específico para resguardar os depositantes e evitar contágio no sistema financeiro como um todo. O Ministério Público, por sua vez, solicitou abertura de investigação criminal sobre o caso e ordenou a prisão de oito pessoas ligadas à administração do Ueno. Estas ações indicam suspeita de irregularidades graves nas operações da instituição.

Investigações sobre operações questionáveis

Órgãos reguladores investigam se o Ueno financiou indiretamente a venda de uma carteira de ativos pertencente a empresa ligada ao Grupo Vázquez, seu controlador principal. O banco negava sistematicamente a realização desta operação, mas as investigações continuaram avançando. Esta possível transação representa potencial violação de normas de compliance e proteção dos depositantes.

Impacto sobre clientes e recursos públicos

O Ueno administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos no Paraguai, incluindo valores da seguridade social e fundos de previdência. Quando agências fecharam suas portas na terça-feira, clientes, muitos deles aposentados que recebem benefícios governamentais através da instituição, encontraram-se impossibilitados de acessar seus recursos. A situação gerou transtorno significativo para população vulnerável.

Manuel Cáceres, morador de Ñemby nos arredores de Assunção, relatou à agência Reuters: "Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno. Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim." O depoimento ilustra o sofrimento de cidadãos afetados pela crise.

Respostas governamentais e medidas de proteção

Diante da gravidade situacional, o presidente Santiago Peña anunciou acordo com líderes do Congresso para acelerar votação de projeto que autoriza uso do Fundo de Garantia nacional para realizar pagamentos aos depositantes. Esta medida visa assegurar devolução de recursos públicos, incluindo valores mantidos pelo instituto de seguridade social IPS e demais fundos de previdência do país.

Peña reiterou que recursos públicos mantidos no Ueno deveriam ser devolvidos integralmente aos seus proprietários legítimos. O presidente também enfatizou que responsáveis pelo caso "devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios", sinalizando disposição de enfrentar politicamente os envolvidos.

Contexto político e ligações pessoais

O presidente paraguaio teve ligações diretas com o grupo controlador do Ueno, do qual foi sócio até março de 2025. Esta conexão pessoal amplificou as críticas políticas e gerou questões sobre possíveis conflitos de interesse. Parlamentares já demandavam renúncia da cúpula do Banco Central, particularmente após rejeitarem relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto.

Carvallo havia comandado o próprio Ueno até agosto de 2023 antes de assumir a presidência do Banco Central. Esta trajetória profissional levantou questionamentos sobre capacidade e imparcialidade na supervisão da instituição que anteriormente dirigira, especialmente considerando a supervisão inadequada que a crise revelou.

Impactos nos mercados e reputação internacional

A crise do Ueno afetou também os mercados financeiros. Preocupações com a instituição pressionaram títulos em dólar do banco com vencimento em 2031 e os próprios títulos de dívida do Paraguai. Estes efeitos demostram como crises bancárias locais podem ter repercussão em indicadores de risco país e custos de financiamento internacional.

O caso prejudicou a reputação do Paraguai como destino emergente para capital estrangeiro na América do Sul, grande parte dele proveniente do Brasil. Investidores internacionais dependem de marcos regulatórios confiáveis e supervisão adequada para alocar recursos em economias emergentes. A falha em prevenir ou detectar os problemas do Ueno gerou dúvidas sobre a qualidade institucional e governança.

Trajetória do Ueno e contexto de fintech

O Ueno, controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, transformou-se rapidamente de fintech local de nicho em banco de médio porte. Esta trajetória assemelha-se à de plataformas digitais de sucesso como Monzo e Nubank. No entanto, enquanto estas instituições construíram reputação sólida, o Ueno enfrentou dificuldades regulatórias e financeiras que comprometeram sua viabilidade operacional.

Afirmações oficiais sobre isolamento do caso

Segundo o Banco Central do Paraguai, o caso do Ueno seria isolado e não indicaria problemas mais amplos no sistema financeiro nacional. O presidente Peña reforçou este posicionamento: "Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional." Autoridades buscavam conter preocupações sobre contágio sistêmico.

Para verificar a situação dos ativos do Ueno, a Superintendência de Bancos nomearia auditores especializados. Carvallo afirmou que permaneceria no cargo durante procedimento adotado pelas autoridades para lidar com crise, embora posteriormente tenha anunciado sua renúncia.

Saída de Carvallo e motivos declarados

Ao anunciar sua saída, Carvallo argumentou que a renúncia ajudaria a reduzir controvérsia em torno do Banco Central e permitiria que a instituição e Superintendência de Bancos trabalhassem sem disputas políticas e repercussão negativa na imprensa. Esta justificativa sugeria reconhecimento implícito de que sua permanência seria obstáculo para resolução adequada da crise.

Também em Economia

Criptomoedas

Bitcoin (BTC) $76,797 ▼ 0.42%
Ethereum (ETH) $2,262 ▲ 0.21%
BNB $693 ▼ 0.85%
Solana (SOL) $92 ▼ 0.64%

Divisas

EUR/USD1.1179
USD/JPY158.2900